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Ucrânia, Rússia, FMI e todos os outros interesses...

Quarta-feira, 05.03.14
“Viver debaixo da bota russa não é, como tão bem sabem os ucranianos, pera doce. Mas a sua chegada à Europa, pela mão de gente em quem só por muita candura se podem depositar grandes esperanças democráticas, será um momento interessante de observar. Confesso que até eu fui surpreendido com a crueza com que as instituições europeias, o FMI e os Estados Unidos deram as "
boas vindas" aos ucranianos. ...A Ucrânia está em pré-bancarrota. Os créditos prometidos por Moscovo eram tudo o que lhe sobrava. Tem de pagar, ainda este ano, 13 mil milhões de dólares aos seus credores e a Rússia ia emprestar 15 mil milhões.
A primeira tranche já tinha vindo. A nossa amiga Standard & Poor's explicou que sem o dinheiro russo o colapso é certo. Agora os russos estão hesitantes.
Fossem os ucranianos como alguns portugueses e isso devia ter chegado para comerem e calarem. Afinal de contas, quem paga a factura impõe a sua vontade e só um louco enfrenta quem lhe empresta dinheiro. Mas foi comovente ver quem trata como irresponsáveis os que aqui não querem trocar crédito por dignidade aplaudir a coragem do povo ucraniano na luta pela sua independência.
Porque a divida são os tanques e as ogivas nucleares do século XXI, mudar de aliados significará, para a Ucrânia, mudar de credores. E os novos candidatos já explicaram ao que vinham.
Ainda o fumo dos pneus se via na Praça da Independência e já o FMI e (Olli Rehn, que logo fez coro com Christine Lagarde) explicava que só verão os dólares se fizerem "reformas económicas".
Pode ser que estivesse a falar do combate à corrupção e aos oligarcas, o que seria uma autêntica revolução nas prioridades do FMI. Mas cheira-me que as reformas são as outras.
As do costume. Ainda mais apetecíveis num país com a importância económica e estratégica da Ucrânia. Traduzido: passem para cá os vossos "activos" que nós vos ligamos à nossa máquina de crédito.
Ainda a polícia e os paramilitares da oposição estavam frente a frente, atrás das suas barricadas e já o Departamento de Estado dos Estados Unidos pedia um governo "tecnocrático, de unidade nacional".
Um governo não eleito semelhante aos que existiram na Grécia e em Itália. E, pedindo-se que sejam tecnocratas e não políticos, acho que não sou bruxo se depreender que o objectivo é que sejam estes a começar as tais reformas.
Os ucranianos já fizeram a sua parte, ao pegar fogo a Kiev. Não me digam que agora também querem eleger o governo e decidir as reformas que se fazem? Deixem isso para os técnicos. Lá como cá, como na Grécia ou como em Itália, as eleições servem apenas para confirmar decisões inevitáveis.
E apenas depois das decisões serem tomadas. Esta forma de fazer as coisas é melhor do que a violenta dominação russa? Os bancos que sugam os recursos públicos dos países europeus são menos assustadores do que as máfias e os oligarcas? Sim, claro. Mas convenhamos que é fraco o consolo para quem arriscou a vida em nome da democracia e da independência.”

        

(Daniel Oliveira no ‘Expresso’)

 

 

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